quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Chuva

Sinto-me como se tivesse feito um retiro espiritual sem me ter inscrito no mesmo. Estou com um mau humor daqui até à China. Estou naquele processo em que preciso de aceitar aquilo que não consigo mudar que não está ao meu alcance. Que raiva e revolta. Ao mesmo tempo ecoam em mim os conselhos machistas e de poder que as pessoas me deram... não avances não é a tua vez. No outro dia ouvi alguém dizer que a única coisa que cai do céu é a chuva... tudo o resto temos que lutar, temos que fazer por merecer e foi nesse espírito que um dia num rasgo de loucura fui ter contigo naquele dia. Anteontem... ontem vesti-me da cabeça aos pés com a maior esperança de te encontrar depois deste tempo todo. Coisas da vida não estavas, o teu lugar de estacionamento estava vazio, é muito curioso como nunca ninguém estaciona no teu lugar, como o meu coração bate mais forte quando passo de manhã, vejo o teu carro estacionado e já sei que te vou ver umas horas depois. O mundo parece que sorri nesses dias. Chove torrencialmente e eu que adoro chuva, o cheiro a terra molhada, a vida que brota da àgua... eu estou farta de estar fechada. Preciso das intensas caminhadas ao sol, preciso de libertar esta energia que me atormenta, preciso de te ver e sentir no teu olhar aquela micro reação que te atraiçoa e me diz através do teu comportamento não-verbal que me sentes e procuras no espaço. Preciso de sentir que sorris por detrás da máscara quando te colocas mesmo à minha frente e não te posso tocar. Preciso de tão pouco e ao mesmo tempo quero o mundo. Amanhã lá estarei, à mesma hora no local de sempre será que depois deste mês maluco de confinamento finalmente haverá um sorriso?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Hoje

 

Queria poder ter umas asas e voar... saber e sentir se me tens procurado como muitas vezes já te apanhei a procurar o meu carro no estacionamento. Já lá vão duas semanas sem te ver... e parece que vão ser umas três, obrigatoriedade de confinamento e pandemia em curso... parece que falo de um filme de ficção. 

Aprendi a conhecer a tua linguagem não-verbal, a saber quando estás chateado, a perceber quando os dias te correm bem, quando sorris para a vida. Aprendi que sinto um carinho imenso quando te pões mesmo à minha frente e te ris da brincadeira ... como me aperta o coração de não poder correr para ti e abraçar-te. É por este sentimento que me faz sentir que sou novamente uma adolescente, tinha-me esquecido do que era sentir.... isto. Tinha-me esquecido como era ficar nervosa quando te aproximas, tinha-me esquecido de que o corpo estremece. Tinha-me esquecido da raiva que sinto por nunca me teres respondido ou talvez seja da falta de coragem ainda não sei se da minha ou da tua de esclarecer tudo de uma vez.

É bom perceber que reages à minha presença mesmo quando apareço pela segunda vez ao dia inesperadamente... Como a tua linguagem não-verbal te denuncia. A adrenalina que sinto quando sei que vais lá estar e te vou rever nesse dia. O meu coração serenou quando desapareceste aqueles três meses parece que aquele ditado longe da vista, longe do coração por essa altura significou uma calma inerente a um conjunto de incertezas ... o dia-a-dia era mais rotineiro. A expectativa de estares lá ou não faz com que o dia implique mais ou menos energia. Uma energia que mói e ao mesmo tempo mobiliza. Gostava de saber que naquele pedacinho de tempo que passou a ser o nosso, por pequeno que seja, que pensas em mim, que me procuras, que questionas a minha ausência tão prolongada. Todos os dias penso em ti e em como me surpreendo todos dias por ter tantas saudades de um desconhecido. Mais um dia.. ando a contar os dias... e quase não acredito que isso me está a acontecer, como a vida dá voltas tão surpreendentes e como o nosso psicológico desenha sobre as emoções de uma forma tão complexa. Ora amarga, ora doce para nos lembrar (como diz a música dos Ornatos) que o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura. 

S.    


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Era uma vez ...

 


Fez um ano em Outubro que a minha vida mudou. Que comecei a fazer uma hora de caminho todos os dias para fazer cumprir objectivos de vida. Encontrar um sentido, fazer a diferença na vida de alguém. Na maior parte dos dias sinto-me profundamente feliz apesar do panorama geral. Ao longo deste ano vivi uma paz profunda e purificadora. Existem poucos sítios na vida onde nos sentimos integrados, respeitados e nos sentimos em sintonia com a natureza e tudo à nossa volta. A vida profissional não é tudo mas os meus dias eram tranquilos sem turbulência. Até que no correr dos dias e ao longo das minhas observações lá estavas tu todos dias. Comecei por observar aquele ser sem saber bem porquê. Apenas me lembro do som do teu sorriso por detrás da máquina a falar inglês e eu a responder ironicamente. Depois daquele dia tu estavas sempre lá parado à porta em início de pandemia sempre alerta. Sempre de preto, sempre firme… um dia ia jurar que falaste comigo como não percebi através da máscara respondi boa tarde. Noutro dia ia jurar que falaste comigo através do teu olhar profundo e penetrante, malandro apanhaste-me nesse dia com o teu olhar lindo. Fizeste-me uma radiografia direta ao coração. Foi nesse dia que eu tremi … e que me questionei se algum dia voltaria a sentir aquele abanão da vida como já não sentia fazia algum tempo. Não consigo bem analisar o tempo mas foram meses que passaram e a certeza de que na hora de almoço te iria ver. Fiz testes e testes a tentar analisar o porquê mas chega a uma altura em que basta sentir aquele estremecimento que nos mobiliza e faz sentir vivo. Nesta minha nova vida passo algum tempo a ouvir rádio. Um dia a Ritinha da Rádio Comercial disse numa emissão que estava a ouvir na hora de almoço: tenha a coragem de dizer àquela pessoa que gosta dela. Depois de um mês…. de tentativas, de turnos em que não estavas lá, consegui dirigir-me a ti enquanto almoçavas. Não sei bem onde fui buscar coragem. Aquela foi a forma mais original que consegui encontrar para tentar chegar até ti. Fiquei assustada com a tua reação. Questiono-me se alguma vez ouviste a música…. Como pudeste silenciar este gesto tão especial. Torná-lo em algo agonizante, este silêncio… Sim sou desconhecida, a tua desconhecida. Naquele dia estava muito atrasada, a nível profissional a minha vida mudou nesse dia … deixei de apoiar alguém que precisava muito de mim, deixei de fazer a diferença na vida de alguém. Um dia se tiver oportunidade conto-te essa história. Até hoje tu nunca respondeste e até hoje não te perdoo a falta de humanidade de me mandares um simples sms a dizer não estou interessado. Era honesto, era sincero. Mas tu não …. Da tua parte só olhares, só silêncio e pouco tempo depois desapareces por mais de 3 meses… Tantas perguntas! És casado? És comprometido? Onde andas? Será que o teu telemóvel é de outro século? Na sexta-feira o meu coração parou quando os nossos olhares se cruzaram depois de tanto tempo. Quando ambos disfarçamos, quando ambos procurávamos o olhar um do outro. Sim porque tu também me sentes. Não te escondas atrás da máscara, das cameras. Na segunda apeteceu-me parar ali o carro e correr para ti só para te dar um abraço, não me enlouqueças… pareceu-me que estavas ali só para me ver passar. Viste… eu fui lanchar na terça só para te ver, assumo. É linda a tua atitude mas não é palpável eu não sei se foi coincidência ou não. Custa assim tanto mandares uma mensagem? Marcar um dia para falarmos longe do teu local de trabalho? Preciso que me atires a bola que te atirei e me mostres que também queres ver o que acontece. Preciso de sentir a tua coragem também, ter a certeza de que isto não é um jogo. Apenas duas pessoas humanas e sensíveis que se podem ou não cruzar na vida. Diz-me algo nem que seja és louca não estou interessado! É claro que eu preferia és louca e estou interessado...